Pedra-sabão
junho 25, 2009
Começou quando o publicitário lusitano Jairo Martin, 37 anos, casado e bem sucedido, foi encontrado morto por sua esposa e seu vizinho nigeriano na sala de seu apartamento. O que circunda a vida e principalmente as circunstancias da morte de Martin, hoje é tido como quase um mito, uma lenda urbana que toma forma e corpo de acordo com a imaginação do narrador, bem como sua sobriedade, neste caso do ouvinte também, visto ainda que é uma historia quase que necessária em mesas de bar da cidade do porto, e foi justamente em uma delas que escutei:
- Martin nasceu no final da década de 70 já despertando curiosidades. O parto, uma cesariana, ocorreu de forma tranqüila e típica a não ser pelo fato da criança não chorar. Não que isso seja impossível ou absurdamente raro, mas também esta longe de ser normal. Existem estatísticas que comprovam que na maioria esmagadora dos partos as crianças choram. Martin não chorou.
Cresceu, se desenvolveu bem, os dentes começaram a nascer e o incomodo era grande de fato, e ate o momento, uns 2 anos eu acho, nenhuma lagrima. Toneladas de risos, gritos aos montes, algumas silabas dessa língua que só eles dominam, mas nenhuma lagrima.
Era realmente muito estranho, seus pais procuraram um pediatra que apos uma bateria de exames coçou a cabeça e lascou um belisco no braço do menino. Martin gritou, franziu a testa, se aconchegou no colo da mãe mas não despejou uma lagrima sequer.- Não é fisiológico - disse o medico, e o menino tem uma tolerância normal a dor, coisa que eu pensava contrario. Mas vamos dar um tempo. Ele é perfeitamente normal.
O tempo passou. No primeiro dia de aula não havia choro, muito menos nervosismo ou medo. Passou por tombos, braços quebrados e pontos na testa sem nenhuma lagrima.
Nunca foi afetuoso. Seus pais, ambos engenheiros químicos da universidade de Lisboa, também não eram. Cresceu com cumprimentos frios e tapinhas nas costas. Não era bom com relacionamentos e o fazia somente quando necessário, de forma fria e matemática. Foi assim que com 15 anos, para evitar os comentários sobre sua sexualidade, que começou a namorar Paula, uma menina obesa e feia, 3 anos mais velha e louca para perder a virgindade.
No mesmo ano sua mãe morreu, Martin não chorou. Dois anos depois, Paula, não suportando mais a frieza de Martin, o abandonou para ficar com Lucio, o jovem dono da padaria do bairro. Martin deu de ombros e foi jogar bola.
No ano seguinte o pai de Martin morreu, o deixando sob a tutela de seu avô. Jairo Martin se recusava a chorar, não exteriorizava nada, como se simplesmente não sentisse, ou pior, não se importasse.
As frustrações e sucessos passaram, namoradas, casos, mortes de “amigos” e familiares, nenhuma lagrima, sem demonstrar tristeza ou luto, inabalável como uma rocha.
Diziam que tinha coração de gelo.
Em 1999 conheceu Regina, em Lugano na Suíça, durante uma conferencia de publicidade. Ela jura até hoje que ele gaguejou ao pedi-la em namoro, e sua boca estava seca no primeiro beijo, que até os primeiros anos de casamento ele era outro, não este que todos dizem estar acostumados. Tudo isso aconteceu na Suíça, onde os dois fixaram residência por tres anos. De volta a cidade do Porto, ele era o mesmo.
Foi surpreendente para Regina descobrir enfim a frieza de Jairo. Beijos na testa, indiferença, frases feitas. Ela se afastou.
Dai foram dois anos para o fatídico dia em que o publicitário lusitano Jairo Martin, 37 anos, casado e bem sucedido, foi encontrado morto por sua esposa e seu vizinho nigeriano na sala de seu apartamento, sentado no chão da sala, recostado no sofá verde com a maleta no colo e os olhos vermelhos e marejados. O nigeriano que havia se tornado grande amigo de Regina, diz que ele tinha lagrimas no rosto no momento em que o encontraram, já Regina não falava nada.
A autopsia foi feita e não se sabe até hoje a causa da morte de Jairo Martin, um dos homens mais frios e secos do mundo, o homem que nunca chorou se tornou mais famoso não por ter morrido sem chorar, mas por que em sua autopsia descobriram um composto arenoso que permeava seu coração.
Existe uma página na Wikipedia sobre o homem com coração de pedra, e lá esses detalhes científicos estão mais claros. O que me recordo é que era um composto de talco, contendo muitos outros minerais como magnesita, clorita, tremolita…
