Mobiliário funcional
julho 2, 2009
A cama era o único móvel montado na casa. As paredes brancas do quarto estavam cercadas por peças de madeiras de móveis indistintos, iluminados pela luz indireta da noite. Parecia uma paisagem alienígena, reforçada pelo ar pesado, aquela mistura dos cheiros de tinta fresca, poeira e sexo. Deitado com a cabeça virada para os pés da cama, com os olhos fechados, eu tentava recuperar a respiração, enquanto me concentrava ao máximo para não me apaixonar. Não de novo. Queria ignorar a brisa fria que se infiltrava sob os lençóis e só sentia as mãos dela acariciando minha perna. Queria ignorar o som da sua respiração. Queria me concentrar ao ponto em que teria certeza absoluta que não passava de mais uma, daquelas bem mais ou menos.
Ela se levantou. Eu ignorei. Ela abriu uma caixa e perguntou se podia pegar uma camisa emprestada. Eu ignorei. Ela vestiu a camisa, alisou minha nuca e andou até a porta. “Nem pense em dormir, o que temos para beber nessas suas caixas?” Não pude ignorar. Pendurei minha cabeça para trás, no pé da cama, e olhei para a porta de cabeça para baixo. A luz do corredor acesa desenhava sua silhueta: ela estava de costas, com a cabeça baixa, vestindo minha camisa de botões favorita, branca, que a luz fazia brilhar através do tecido, com ambas as mãos apoiadas na altura de sua cabeça no portal. Não tive coragem de responder. Aliás, nem lembrava que ela tinha perguntado alguma coisa.
Lentamente, virou o rosto em minha direção, lançou um sorriso discreto mas confiante, e suas pernas nuas se mexeram para que erguesse o pé direto e o posicionasse atrás do esquerdo, curvando-o para apoiar as costas de seus dedos sobre o chão e revelando a sola de seu pé suja da poeira da casa. Ela ergueu uma sobrancelha como quem quer dizer “e aí?”. “Ela é a Mia Wallace. Puta merda, ela é Mia Wallace, e eu não quero ser Vincent Vega. Já vi esse filme”, pensei. Entrei em súbito pânico, mas o mal já estava feito. Não podia mais ignorar.
Disse a ela para buscar a garrafa de whisky na caixa pequena na sala. E lá foi ela, deslizando com ar infantil sobre o chão empoeirado, lenta e sinuosa, seu cabelo preto e liso pendulava rente sobre seu ombro. Sentei na cama e coloquei alguma roupa.
- Você já viu Pulp Fiction?, perguntei.
- Claro, quem nunca viu?
- E que personagem você seria?
- Ah, eu gosto mais do Samuel Jackson.
- Não vale, tem que ser mulher.
- Que machismo idiota, por quê? Só existem quatro mulheres com participação decente no filme: a Uma Thurman fazendo a Mia Wallace, aquela francesa, mulher do Bruce Willis, a histérica do assalto e a esposa do traficante.
- Então, dessas quatro, com quem você se identifica mais?
- Bom, sobrando só isso eu prefiro a francesa. Mas por que isso?
- Nada não. Achou a garrafa?
- Achei, mas está pela metade.
- Não importa, vem cá.
Deitei novamente na cama, repeti a posição que estava quando ela saiu. Ela voltou olhando pra mim e sorrindo, deu um longo gole no whisky, limpou a boca. Chegou perto de mim, abaixou-se, pegou minha cabeça e me deu um beijo úmido. “Só por hoje eu quero acreditar que você será a francesa que esquece meu relógio. Mas você sabe, e eu sei muito bem, que você é a Mia Wallace.” Ela riu, subiu na cama e me calou a boca.
Algumas horas depois o sol ameaçava sair, ela dormia do meu lado e saí pela casa. Aquele lugar era completamente estranho para mim ainda. Não sabia muito bem os caminhos, me surpreendia com as janelas e tropeçava nas caixas. Ela acordou, calma, e disse que ia embora. Falei para ela ficar. Para sempre. Ela abriu um sorriso gigante, e me fitou fixa. Eu caminhei de volta até o quarto, deitei na cama e a puxei para perto de mim. Abraçamos-nos e, por alguns instantes, esfregamos nossos pés empoeirados uns nos outros. Sob a luz do sol que vinha chegando, o cenário alienígena se perdia entre tábuas e portas e prateleiras de móveis desmontados, mas antes disso voltamos a dormir.
