Discurso Sobre a Mentira
julho 29, 2009
Após alguns minutos de meditação muito superficial acerca (dentre alguns por menores) do que considero como experiência sensível, me imbuí da penosa tarefa de elaborar uma crítica à verdade, crítica esta que visa demonstrar como essa busca cega e dogmática a ela nos enclausura nos calabouços do saber, monocromatizando a vivência, se utilizando de paradigmas para esfriar as comunhões e minando toda e qualquer manifestação da pureza animal que, com esperança, ainda habita algum oásis na aridez do nosso espírito.
Parece-me que agora, após explanar a intenção do discurso, cabe a mim elaborar alguma forma, um método para melhor conduzir minhas…
– PUTA QUE PARIU !!!! – A música tribal tocada nas teclas do computador dá lugar a gritos desesperados de retaliação – PORQUE VOCÊ FICA DURO !!!!????
Esse é o dia derradeiro para Francisco, hoje faz uma semana que seu artigo para uma grande revista de filosofia esta atrasado.
Há nove dias atrás ele recebeu uma ligação de Márcio lhe encomendando um artigo de mais ou menos trinta linhas tratando de qualquer coisa, filosofia moderna, da natureza, contemporânea, lógica dialética, qualquer tema com uma abordagem filosófica para ser publicado no lugar da coluna de Hercílio, um “bosta pedante de pau pequeno” segundo o próprio Francisco. Nesse dia, Francisco tinha oito dias pela frente para fazer um artigo.
Há oito dias atrás ele ainda tinha sete dias.
Há sete dias atrás ele dava risada quando soube que Hercílio não poderia escrever o artigo esse mês porque estava internado. Não parece uma atitude razoável dar risada de qualquer um que esteja numa situação dessas, mas Francisco não valia nada mesmo e não seria surpresa para ninguém saber que o sujeito perdeu o dia ligando para todos os conhecidos em comum para dar a notícia da cirurgia de Hercílio.
Há seis dias atrás, Francisco acordou as dez da manhã, porém só se levantou a uma da tarde, colocou uma bermuda e uma camisa, calçou os chinelos, escovou os dentes, se penteou no espelho do elevador e se dirigiu ao boteco na Paula Freitas. Lá saudou os conhecidos, pediu o prato executivo, colocou na conta como de costume e seguindo o ritual quase que diário começou a falar de mulher, futebol e Hercílio. Entre risadas, arrotos e pausas para admirar as meninas, surgiu o assunto:
– O Hercílio finalmente operou!!! Bichona…. – disse Francisco; e outro cliente complementou:
– E ele já até saiu do hospital. Fiquei sabendo hoje de manhã.
Depois do almoço Francisco voltou para casa, ligou o computador, mas foi dormir de novo, e nesse ritmo mais um dia se passou.
Há cinco dias atrás Francisco não tinha Conhecido Paula.
Há quatro dias atrás, Francisco recebeu um convite por e-mail para uma festa na boate “the week”, pedindo a confirmação do nome na lista. Francisco nunca é convidado para nada por ser um homem realmente desagradável, se veste mal, é grosso, sua muito e é extremamente mal educado. Para ele um convite virtual era quase como ganhar na loto, só mesmo um desconhecido rifando e-mails como um A-10 lançando NAPALM na selva vietnamita poderia salva-lo de sua noite monótona em sites pornô, ou melhor: livrar seus conhecidos de sua companhia grotesca. O dia foi tomado pela expectativa da festa, e Francisco se preocupou em comprar uma camisa nova.
Há três dias atrás, Francisco sentou para escrever e nada saiu. Nem o primeiro parágrafo, a primeira frase, a primeira palavra, nada. Pensou nos dois dias que tinha pela frente e concluiu que estava tão excitado com a festa, que seria em vão perder a tarde se desgastando com um ofício tão simples e orgânico para uma pessoa como ele ao invés de dormir e estar absolutamente descansado para o feito noturno. E foi o que fez.
Há dois dias atrás, Francisco conheceu em uma boate a mulher que mudou sua vida. A mulher que atende pelo nome de Paula, despertou tudo que havia de bom nesse homem ao dar a oportunidade de, mesmo que num ambiente de penumbra perturbadora e som ensurdecedor chamado discoteca, ele se apresentasse, embora extremamente alcoolizado e bem por isso se mostrasse sincero a ponto de deixá-la ver por baixo daquela crosta de sujeira que envolvia seu espírito, que lá havia um homem, um cavalheiro gentil e por mais brega que possa parecer, louco para amar. Os dois ficaram juntos naquela noite, trocaram carinhos, beijos e no final da noite, segredos.
Há um dia atrás, Francisco só tinha mais um dia para entregar o artigo, um número de telefone anotado em um guardanapo de papel e nenhuma vontade de escrever.
Hoje Francisco discute com seu próprio falo, que estimulado pelas lembranças de Paula não o deixa se concentrar no artigo. Um parágrafo foi escrito em cinco horas que ele se encontrava sentado em frente ao computador, e a lembrança da amada já o tinha assaltado dez mil vezes. Tomado pelo impulso, Francisco se levantou, pegou na cabeceira da cama o guardanapo de papel onde estava escrito o telefone de Paula e ligou.
- Alô. Hercílio?
- Não. É Paula.
- Desculpa Paula. É que eu ainda não me acostumei…
