Champanhe
agosto 12, 2009
Michele chegou em casa, abriu a geladeira e encontrou uma garrafa de champanhe encaixada casualmente na parte de baixo da porta, entre uma garrafa d’água e um suco de caixinha. A visão de uma garrafa e champanhe a deixou perturbada. Como qualquer mãe de família, com um filho mais velho adolescente, cogitou por um instante ser dele a garrafa, mas certamente seu filho não era tão burro ou tão desafiador. A única origem plausível para aquela garrafa de espumante era seu marido.

por Monica A.
No momento em que notou esse fato sentiu uma pontada de excitação subir rapidamente pela coluna. Não se tratava mais de apenas uma garrafa, era uma certeza de que em breve haveria uma surpresa, um motivo para comemorar, e não era para a virada de ano, em pleno Setembro. Com esse pensamento em mente, se direcionou ao quarto. Chegou lá encontrou a cena rotineira: ele se sentava ao pé da cama, de cueca samba-canção, segurando o jornal e, como sempre, fazendo a mesma expressão de discreto amedrontamento com as notícias do mundo.
A cena cotidiana se mostrou insuportavelmente verdadeira diante do distúrbio atmosférico que aquela garrafa causara. Em uma manobra estratégica, decidiu fazer aquele jogo e perguntar sobre nada. Arriscou um “Oi Cláudio, teve um bom dia? – Essa era a pergunta que sempre fazia, todos dias da semana em mais tempo do que se recorda. No entanto, sua entonação era incapaz de esconder certo transtorno. A resposta de Cláudio, entretanto, não demonstrou qualquer tipo de sentimento especial. Como de costume, balançou a cabeça, respirou fundo, comentou sem levantar os olhos sobre algum colega ou funcionário que faz algo de errado, respirou fundo de novo, falou com apreensão sobre alguma notícia de impacto mundial, balançou por fim a cabeça, fez uma pequena pausa e ergueu os olhos, mirou Michele, e devolveu a pergunta.
Ela não tinha certeza do que dizer naquele momento. Mesmo respondendo a mesma pergunta todos os santos dias dos últimos anos, ela não elaborou aquele momento daquela maneira. Por insegurança, tentou demonstrar força. Falou que teve um ótimo dia, que fez um excelente acordo, e esperava que as coisas fossem melhorar ainda mais em breve. Enquanto falava, ela ia se incomodando com o jeito que seu marido a olhava nos olhos e escutava atentamente suas palavras, cada vez mais exageradas numa tentativa vão de contra-atacar com aquilo que esperava ouvir.
Cláudio então quebrou a rotina. Levantou-se. Michele ainda acreditava que aquele poderia ser o momento da revelação, e prendeu de leve o ar nos seus pulmões enquanto seu marido a abraçava e dizia que a amava muito e estava feliz por ela. Deu-lhe um beijo e queria fazer amor para comemorar o dia. Mas de súbito ela percebeu o quanto que aquela reação era óbvia. Toda vez que ela aparecia com uma boa notícia em casa, ele fazia sempre a mesma cena, sempre aquele gesto coreografado de carinho e sentiu-se amarga. Empurrou-o quase delicadamente para o lado, comentou sobre suas constantes enxaquecas e foi para o banho. Ela sabia que quando voltasse ele não estaria mais no quarto, e sim na sala assistindo o DVD dos melhores gols do Zico.
E assim ela achou que deveria deixar aquela revelação vir com suas próprias pernas, com um andar leve felino em caça, e se preparava para o bote todos os dias, todos os momentos. No começo, ela ficou mais bonita, mais vaidosa, emagreceu e até Diego, seu ex-amante, voltou a procurá-la. Ele a havia deixado três anos antes, alegando que não achava justo o que estava acontecendo, e era hora de parar antes que Cláudio descobrisse. Ela esquivou-se elegantemente do assédio, visto que seu marido em breve se revelaria novamente um homem apaixonante. E com os meses a espera foi ganhando ares de monotonia. Sua paciência esgotou-se, tornou-se uma pessoa mais rancorosa, já não tinha mais certeza de que aquele champanhe era para ela. Imaginou se seu marido tinha uma amante, chegou a segui-lo certa vez, mas desistiu da idéia de uma amante assim que percebeu que a rotina dele era perfeita demais para abrir espaço a essas mudanças. Michele perdeu sua vaidade, ficou relapsa e menos caprichosa no trabalho, na vida, com os filhos, e voltou a considerar seriamente abandonar seu marido, coisa que não fazia há anos, desde Diego.
As pessoas começaram a notar que havia algo de errado, e Cláudio certa noite a perguntou se ela estava bem, se algo a incomodava. A essa altura, o Réveillon já havia passado, e a garrafa continuava ali, imóvel. Seu filho perguntou, finalmente. Ela negou a existência de uma garrafa de champanhe ao garoto rebelde. Foi repreendida no trabalho, e foi mandada para a filial de Magé para atualizar seus relatórios. Esse escritório ficava bem mais longe da sua casa do que a matriz, mas era uma oportunidade de crescimento na empresa.
No fim do dia, ela voltava para casa quando seu carro quebrou. Era um dia bonito, e o carro ficou parado no acostamento, em uma paisagem de ares bucólicos, com aquela luz que o sol produz no outono ao se por na serra. Olhou em volta, pesnou em pedir ajuda a alguém, mas estava cansada, entristecida, frustrada e então decidiu ligar para seu marido e pedir ajuda. Falou com ele rapidamente pelo celular, enquanto Cláudio saiu em disparada para resgate. Chegou rapidamente, esbaforido, testou a ignição, olhou o motor, fez caras e grunidos, sujou-se e decidiu chamar um reboque. Enquanto esperavam, sentaram-se no capô do corsa azul-marinho de Michele e ficaram obervando o sol esconder-se atrás dos morros e montanhas, as sombras que se desenhavam sobre os pastos e o barulho do vento, intercalado pelo estrondo de carros e caminhões que passavam apressadamente pela estrada. Uma ou outra pessoa passou de bicicleta pelo casal que assistia ao fim do dia sem dizer nenhuma palavra, como em um pacto sagrado de silêncio.
Michele escorregava pelo capô constantemente e sentia sua perna recostar-se como que por vontade própria sobre a perna de Cláudio, e apesar de certo desconforto, estava se divertindo com o jogo de sedução maquinado pela gravidade, e os efeitos que ele causava no casal. Em alguns minutos, Cláudio decidiu segurar Michele pelo ombro e a manteve presa encostada ao seu lado, enquanto que ela respondeu recostando sua cabeça sobre o ombro de seu marido. Lá pelas tantas já sentia certa dormência, mas não se mexeria jamais se o reboque não tivesse chegado. E sabia que Cláudio também não.
No entanto, ele foi atender os mecânicos, reclamou sonoramente pela demora, e Michele decidiu sentar no capô do Santana prata de Cláudio, ignorando a cena do rebocamento. Entrou em certo transe, como se simplesmente não soubesse lidar com a felicidade sincera que estava experimentando naquele instante. O reboque partiu com seu carro e Cláudio voltou-se a sua esposa. Sentaram lado a lado novamente, mas dessa vez o capô do carro não era tão inclinado, e a magia não se repetiu. Frustrada, Michele voltou-se para dar um último olhar panorâmico naquele cenário o qual observou durante horas e levantar-se para partir quando viu alto, distante no horizonte, a lua cheia, cortada horizontalmente por uma fina camada de nuvens, como em um filme de lobisomens. Era uma cena ainda mais bela que o pôr-do-sol, e Cláudio inesperadamente se levantou e deu dois passos em direção a lua e permaneceu em silêncio, estático. Michele ficou assombrada com a inesperada atitude de seu marido, e o observava com uma já esquecida admiração. Decidiu comentar: “Bonito né? A gente não tem uma vista dessas lá em casa…”. Esse deveria ser um comentário amenizador, para devolvê-la ao controle da situação, mas foi um gatilho para o inesperado.
Cláudio virou-se rapidamente, e caminhou até Michele numa velocidade estranhamente lenta, e em seu rosto estava desenhado um outro homem, com um sorriso misterioso no canto da boca, um olhar fixo e decidido, mas ao mesmo tempo tenro e atraente. Em um gesto galante requisitou a mão de Michele, que não o resisitiu, levantou-a do carro, e em seu ouvido disse, nem alto nem baixo: “Você já dançou com o diabo sob o pálido luar?”. Soltou uma sonora gargalhada, daquelas que ele não gosta normalmente de exibir, e em um puxão um pouco desajeitado, começou a dançar uma valsa surda com sua esposa, agora passiva.
Ela entrou em completo deleite, sentia os olhos pesarem, um incômodo profundo, como se estivesse acordando de um pesadelo e tivesse que contar todas as coisas terríveis que tinha feito enquanto dormia, sobre as mentiras, as enxaquecas, a conta de telefone, até sobre Diego, o amante. Mas sua garganta estava seca e ela consumiu suas energias evitando o choro para esticar ao máximo aquele momento sublime, de dois pra lá e dois pra cá, um tropeço aqui e outro ali, mas com a sensação de seu rosto no ombro de seu marido, o braço recostado em sua cintura, suas mãos unidas, a girar lentamente pelo acostamento da estrada.
Por quanto tempo aquele momento durou, ela não sabia. Mas por conta de um mosquito ou de um caminhão mais barulhento o transe foi suavemente rompido e eles se beijaram e entraram no carro sorrindo. Ela sabia que queria fazer amor como nunca, queria estourar aquele champanhe por ter reencontrado seu amor, e aquele sentimento duraria para sempre, não fosse o filho cobrando da mãe ajuda para a prova de matemática no dia seguinte, e já era onze da noite. Cláudio deu um beijo na testa de ambos e foi dormir, sem dizer nada. Michele ficou com o garoto até às duas da manhã, e sonhou com a comemoração no dia seguinte, mas no fundo sabia que o momento estava perdido, e tinha que aguardar a próxima chance. Passaram-se dias, semanas, meses, e nada. Aquele amor já era um caso perdido novamente, pensou.
Num dia qualquer de Maio, ela conferiu a geladeira, como sempre, e notou a ausência da garrafa de champanhe. Era algo gritante, uma amputação perturbadora naquele cenário de esperança. Michele não quis perguntar novamente. Decidiu que não se incomodaria mais. Ajeitou os espaços na geladeira, olhou tristemente para seu marido sentado ao pé da cama lendo o jornal, foi direto ao banho. Ao deitar, perguntou: “O que você quis dizer com aquela coisa de dançar com o diabo sob o pálido luar?”. Cláudio ficou confuso, mas entendeu a questão, sorriu estranhamente de novo, e respondeu simplesmente: “É uma fala do Coringa no Batman do Tim Burton, antes de dançar com a mocinha, achei que tinha entendido.” Riu um pouco debochadamente, sem disfarçar o descontentamento. Michele virou-se e foi dormir. E voltou a pensar em divórcio, como não pensava havia um bom tempo.
Michele chegou em casa, abriu a geladeira e encontrou uma garrafa de champanhe encaixada casualmente na parte de baixo da porta, entre uma garrafa d’água e um suco de caixinha. A visão de uma garrafa e champanhe a deixou perturbada. Como qualquer mãe de família, com um filho mais velho adolescente, cogitou por um instante ser dele a garrafa, mas certamente seu filho não era tão burro ou tão desafiador. A única origem plausível para aquela garrafa de espumante era seu marido.
No momento em que notou esse fato sentiu uma pontada de excitação subir rapidamente pela coluna. Não se tratava mais de apenas uma garrafa, era uma certeza de que em breve haveria uma surpresa, um motivo para comemorar, e não era para a virada de ano, em pleno Setembro. Com esse pensamento em mente, se direcionou ao quarto. Chegou lá encontrou a cena rotineira: ele se sentava ao pé da cama, de cueca samba-canção, segurando o jornal e, como sempre, fazendo a mesma expressão de discreto amedrontamento com as notícias do mundo.
A cena cotidiana se mostrou insuportavelmente verdadeira diante do distúrbio atmosférico que aquela garrafa causara. Em uma manobra estratégica, decidiu fazer aquele jogo e perguntar sobre nada. Arriscou um “Oi Cláudio, teve um bom dia? – Essa era a pergunta que sempre fazia, todos dias da semana em mais tempo do que se recorda. No entanto, sua entonação era incapaz de esconder certo transtorno. A resposta de Cláudio, entretanto, não demonstrou qualquer tipo de sentimento especial. Como de costume, balançou a cabeça, respirou fundo, comentou sem levantar os olhos sobre algum colega ou funcionário que faz algo de errado, respirou fundo de novo, falou com apreensão sobre alguma notícia de impacto mundial, balançou por fim a cabeça, fez uma pequena pausa e ergueu os olhos, mirou Michele, e devolveu a pergunta.
Ela não tinha certeza do que dizer naquele momento. Mesmo respondendo a mesma pergunta todos os santos dias dos últimos anos, ela não elaborou aquele momento daquela maneira. Por insegurança, tentou demonstrar força. Falou que teve um ótimo dia, que fez um excelente acordo, e esperava que as coisas fossem melhorar ainda mais em breve. Enquanto falava, ela ia se incomodando com o jeito que seu marido a olhava nos olhos e escutava atentamente suas palavras, cada vez mais exageradas numa tentativa vão de contra-atacar com aquilo que esperava ouvir.
Cláudio então quebrou a rotina. Levantou-se. Michele ainda acreditava que aquele poderia ser o momento da revelação, e prendeu de leve o ar nos seus pulmões enquanto seu marido a abraçava e dizia que a amava muito e estava feliz por ela. Deu-lhe um beijo e queria fazer amor para comemorar o dia. Mas de súbito ela percebeu o quanto que aquela reação era óbvia. Toda vez que ela aparecia com uma boa notícia em casa, ele fazia sempre a mesma cena, sempre aquele gesto coreografado de carinho e sentiu-se amarga. Empurrou-o quase delicadamente para o lado, comentou sobre suas constantes enxaquecas e foi para o banho. Ela sabia que quando voltasse ele não estaria mais no quarto, e sim na sala assistindo o DVD dos melhores gols do Zico.
E assim ela achou que deveria deixar aquela revelação vir com suas próprias pernas, com um andar leve felino em caça, e se preparava para o bote todos os dias, todos os momentos. No começo, ela ficou mais bonita, mais vaidosa, emagreceu e até Diego, seu ex-amante, voltou a procurá-la. Ele a havia deixado três anos antes, alegando que não achava justo o que estava acontecendo, e era hora de parar antes que Cláudio descobrisse. Ela esquivou-se elegantemente do assédio, visto que seu marido em breve se revelaria novamente um homem apaixonante. E com os meses a espera foi ganhando ares de monotonia. Sua paciência esgotou-se, tornou-se uma pessoa mais rancorosa, já não tinha mais certeza de que aquele champanhe era para ela. Imaginou se seu marido tinha uma amante, chegou a segui-lo certa vez, mas desistiu da idéia de uma amante assim que percebeu que a rotina dele era perfeita demais para abrir espaço a essas mudanças. Michele perdeu sua vaidade, ficou relapsa e menos caprichosa no trabalho, na vida, com os filhos, e voltou a considerar seriamente abandonar seu marido, coisa que não fazia há anos, desde Diego.
As pessoas começaram a notar que havia algo de errado, e Cláudio certa noite a perguntou se ela estava bem, se algo a incomodava. A essa altura, o Réveillon já havia passado, e a garrafa continuava ali, imóvel. Seu filho perguntou, finalmente. Ela negou a existência de uma garrafa de champanhe ao garoto rebelde. Foi repreendida no trabalho, e foi mandada para a filial de Magé para atualizar seus relatórios. Esse escritório ficava bem mais longe da sua casa do que a matriz, mas era uma oportunidade de crescimento na empresa.
No fim do dia, ela voltava para casa quando seu carro quebrou. Era um dia bonito, e o carro ficou parado no acostamento, em uma paisagem de ares bucólicos, com aquela luz que o sol produz no outono ao se por na serra. Olhou em volta, pesnou em pedir ajuda a alguém, mas estava cansada, entristecida, frustrada e então decidiu ligar para seu marido e pedir ajuda. Falou com ele rapidamente pelo celular, enquanto Cláudio saiu em disparada para resgate. Chegou rapidamente, esbaforido, testou a ignição, olhou o motor, fez caras e grunidos, sujou-se e decidiu chamar um reboque. Enquanto esperavam, sentaram-se no capô do corsa azul-marinho de Michele e ficaram obervando o sol esconder-se atrás dos morros e montanhas, as sombras que se desenhavam sobre os pastos e o barulho do vento, intercalado pelo estrondo de carros e caminhões que passavam apressadamente pela estrada. Uma ou outra pessoa passou de bicicleta pelo casal que assistia ao fim do dia sem dizer nenhuma palavra, como em um pacto sagrado de silêncio.
Michele escorregava pelo capô constantemente e sentia sua perna recostar-se como que por vontade própria sobre a perna de Cláudio, e apesar de certo desconforto, estava se divertindo com o jogo de sedução maquinado pela gravidade, e os efeitos que ele causava no casal. Em alguns minutos, Cláudio decidiu segurar Michele pelo ombro e a manteve presa encostada ao seu lado, enquanto que ela respondeu recostando sua cabeça sobre o ombro de seu marido. Lá pelas tantas já sentia certa dormência, mas não se mexeria jamais se o reboque não tivesse chegado. E sabia que Cláudio também não.
No entanto, ele foi atender os mecânicos, reclamou sonoramente pela demora, e Michele decidiu sentar no capô do Santana prata de Cláudio, ignorando a cena do rebocamento. Entrou em certo transe, como se simplesmente não soubesse lidar com a felicidade sincera que estava experimentando naquele instante. O reboque partiu com seu carro e Cláudio voltou-se a sua esposa. Sentaram lado a lado novamente, mas dessa vez o capô do carro não era tão inclinado, e a magia não se repetiu. Frustrada, Michele voltou-se para dar um último olhar panorâmico naquele cenário o qual observou durante horas e levantar-se para partir quando viu alto, distante no horizonte, a lua cheia, cortada horizontalmente por uma fina camada de nuvens, como em um filme de lobisomens. Era uma cena ainda mais bela que o pôr-do-sol, e Cláudio inesperadamente se levantou e deu dois passos em direção a lua e permaneceu em silêncio, estático. Michele ficou assombrada com a inesperada atitude de seu marido, e o observava com uma já esquecida admiração. Decidiu comentar: “Bonito né? A gente não tem uma vista dessas lá em casa…”. Esse deveria ser um comentário amenizador, para devolvê-la ao controle da situação, mas foi um gatilho para o inesperado.
Cláudio virou-se rapidamente, e caminhou até Michele numa velocidade estranhamente lenta, e em seu rosto estava desenhado um outro homem, com um sorriso misterioso no canto da boca, um olhar fixo e decidido, mas ao mesmo tempo tenro e atraente. Em um gesto galante requisitou a mão de Michele, que não o resisitiu, levantou-a do carro, e em seu ouvido disse, nem alto nem baixo: “Você já dançou com o diabo sob o pálido luar?”. Soltou uma sonora gargalhada, daquelas que ele não gosta normalmente de exibir, e em um puxão um pouco desajeitado, começou a dançar uma valsa surda com sua esposa, agora passiva.
Ela entrou em completo deleite, sentia os olhos pesarem, um incômodo profundo, como se estivesse acordando de um pesadelo e tivesse que contar todas as coisas terríveis que tinha feito enquanto dormia, sobre as mentiras, as enxaquecas, a conta de telefone, até sobre Diego, o amante. Mas sua garganta estava seca e ela consumiu suas energias evitando o choro para esticar ao máximo aquele momento sublime, de dois pra lá e dois pra cá, um tropeço aqui e outro ali, mas com a sensação de seu rosto no ombro de seu marido, o braço recostado em sua cintura, suas mãos unidas, a girar lentamente pelo acostamento da estrada.
Por quanto tempo aquele momento durou, ela não sabia. Mas por conta de um mosquito ou de um caminhão mais barulhento o transe foi suavemente rompido e eles se beijaram e entraram no carro sorrindo. Ela sabia que queria fazer amor como nunca, queria estourar aquele champanhe por ter reencontrado seu amor, e aquele sentimento duraria para sempre, não fosse o filho cobrando da mãe ajuda para a prova de matemática no dia seguinte, e já era onze da noite. Cláudio deu um beijo na testa de ambos e foi dormir, sem dizer nada. Michele ficou com o garoto até às duas da manhã, e sonhou com a comemoração no dia seguinte, mas no fundo sabia que o momento estava perdido, e tinha que aguardar a próxima chance. Passaram-se dias, semanas, meses, e nada. Aquele amor já era um caso perdido novamente, pensou.
Num dia qualquer de Maio, ela conferiu a geladeira, como sempre, e notou a ausência da garrafa de champanhe. Era algo gritante, uma amputação perturbadora naquele cenário de esperança. Michele não quis perguntar novamente. Decidiu que não se incomodaria mais. Ajeitou os espaços na geladeira, olhou tristemente para seu marido sentado ao pé da cama lendo o jornal, foi direto ao banho. Ao deitar, perguntou: “O que você quis dizer com aquela coisa de dançar com o diabo sob o pálido luar?”. Cláudio ficou confuso, mas entendeu a questão, sorriu estranhamente de novo, e respondeu simplesmente: “É uma fala do Coringa no Batman do Tim Burton, antes de dançar com a mocinha, achei que tinha entendido.” Riu um pouco debochadamente, sem disfarçar o descontentamento. Michele virou-se e foi dormir. E voltou a pensar em divórcio, como não pensava havia um bom tempo.