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		<title>Champanhe</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Aug 2009 02:09:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>danielmls</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Michele chegou em casa, abriu a geladeira e encontrou uma garrafa de champanhe encaixada casualmente na parte de baixo da porta, entre uma garrafa d’água e um suco de caixinha. A visão de uma garrafa e champanhe a deixou perturbada. Como qualquer mãe de família, com um filho mais velho adolescente, cogitou por um instante [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pedrasabao.wordpress.com&amp;blog=7555492&amp;post=35&amp;subd=pedrasabao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Michele chegou em casa, abriu a geladeira e encontrou uma garrafa de champanhe encaixada casualmente na parte de baixo da porta, entre uma garrafa d’água e um suco de caixinha. A visão de uma garrafa e champanhe a deixou perturbada. Como qualquer mãe de família, com um filho mais velho adolescente, cogitou por um instante ser dele a garrafa, mas certamente seu filho não era tão burro ou tão desafiador. A única origem plausível para aquela garrafa de espumante era seu marido.</p>
<div id="attachment_37" class="wp-caption aligncenter" style="width: 432px"><img class="size-full wp-image-37" title="champanhe" src="http://pedrasabao.files.wordpress.com/2009/08/champanhe.jpg?w=460" alt="por Monica A."   /><p class="wp-caption-text">por Monica A.</p></div>
<p>No momento em que notou esse fato sentiu uma pontada de excitação subir rapidamente pela coluna. Não se tratava mais de apenas uma garrafa, era uma certeza de que em breve haveria uma surpresa, um motivo para comemorar, e não era para a virada de ano, em pleno Setembro.  Com esse pensamento em mente, se direcionou ao quarto. Chegou lá encontrou a cena rotineira: ele se sentava ao pé da cama, de cueca samba-canção, segurando o jornal e, como sempre, fazendo a mesma expressão de discreto amedrontamento com as notícias do mundo.<span id="more-35"></span></p>
<p>A cena cotidiana se mostrou insuportavelmente verdadeira diante do distúrbio atmosférico que aquela garrafa causara. Em uma manobra estratégica, decidiu fazer aquele jogo e perguntar sobre nada. Arriscou um “Oi Cláudio, teve um bom dia? &#8211; Essa era a pergunta que sempre fazia, todos dias da semana em mais tempo do que se recorda. No entanto, sua entonação era incapaz de esconder certo transtorno. A resposta de Cláudio, entretanto, não demonstrou qualquer tipo de sentimento especial. Como de costume, balançou a cabeça, respirou fundo, comentou sem levantar os olhos sobre algum colega ou funcionário que faz algo de errado, respirou fundo de novo, falou com apreensão sobre alguma notícia de impacto mundial, balançou por fim a cabeça, fez uma pequena pausa e ergueu os olhos, mirou Michele, e devolveu a pergunta.</p>
<p>Ela não tinha certeza do que dizer naquele momento. Mesmo respondendo a mesma pergunta todos os santos dias dos últimos anos, ela não elaborou aquele momento daquela maneira. Por insegurança, tentou demonstrar força. Falou que teve um ótimo dia, que fez um excelente acordo, e esperava que as coisas fossem melhorar ainda mais em breve.  Enquanto falava, ela ia se incomodando com o jeito que seu marido a olhava nos olhos e escutava atentamente suas palavras, cada vez mais exageradas numa tentativa vão de contra-atacar com aquilo que esperava ouvir.</p>
<p>Cláudio então quebrou a rotina. Levantou-se. Michele ainda acreditava que aquele poderia ser o momento da revelação, e prendeu de leve o ar nos seus pulmões enquanto seu marido a abraçava e dizia que a amava muito e estava feliz por ela. Deu-lhe um beijo e queria fazer amor para comemorar o dia. Mas de súbito ela percebeu o quanto que aquela reação era óbvia. Toda vez que ela aparecia com uma boa notícia em casa, ele fazia sempre a mesma cena, sempre aquele gesto coreografado de carinho e sentiu-se amarga. Empurrou-o quase delicadamente para o lado, comentou sobre suas constantes enxaquecas e foi para o banho. Ela sabia que quando voltasse ele não estaria mais no quarto, e sim na sala assistindo o DVD dos melhores gols do Zico.</p>
<p>E assim ela achou que deveria deixar aquela revelação vir com suas próprias pernas, com um andar leve felino em caça, e se preparava para o bote todos os dias, todos os momentos. No começo, ela ficou mais bonita, mais vaidosa, emagreceu e até Diego, seu ex-amante, voltou a procurá-la. Ele a havia deixado três anos antes, alegando que não achava justo o que estava acontecendo, e era hora de parar antes que Cláudio descobrisse. Ela esquivou-se elegantemente do assédio, visto que seu marido em breve se revelaria novamente um homem apaixonante. E com os meses a espera foi ganhando ares de monotonia. Sua paciência esgotou-se, tornou-se uma pessoa mais rancorosa, já não tinha mais certeza de que aquele champanhe era para ela. Imaginou se seu marido tinha uma amante, chegou a segui-lo certa vez, mas desistiu da idéia de uma amante assim que percebeu que a rotina dele era perfeita demais para abrir espaço a essas mudanças. Michele perdeu sua vaidade, ficou relapsa e menos caprichosa no trabalho, na vida, com os filhos, e voltou a considerar seriamente abandonar seu marido, coisa que não fazia há anos, desde Diego.</p>
<p>As pessoas começaram a notar que havia algo de errado, e Cláudio certa noite a perguntou se ela estava bem, se algo a incomodava. A essa altura, o Réveillon já havia passado, e a garrafa continuava ali, imóvel. Seu filho perguntou, finalmente. Ela negou a existência de uma garrafa de champanhe ao garoto rebelde. Foi repreendida no trabalho, e foi mandada para a filial de Magé para atualizar seus relatórios. Esse escritório ficava bem mais longe da sua casa do que a matriz, mas era uma oportunidade de crescimento na empresa.</p>
<p>No fim do dia, ela voltava para casa quando seu carro quebrou. Era um dia bonito, e o carro ficou parado no acostamento, em uma paisagem de ares bucólicos, com aquela luz que o sol produz no outono ao se por na serra. Olhou em volta, pesnou em pedir ajuda a alguém, mas estava cansada, entristecida, frustrada e então decidiu ligar para seu marido e pedir ajuda. Falou com ele rapidamente pelo celular, enquanto Cláudio saiu em disparada para resgate. Chegou rapidamente, esbaforido, testou a ignição, olhou o motor, fez caras e grunidos, sujou-se e decidiu chamar um reboque. Enquanto esperavam, sentaram-se no capô do corsa azul-marinho de Michele e ficaram obervando o sol esconder-se atrás dos morros e montanhas, as sombras que se desenhavam sobre os pastos e o barulho do vento, intercalado pelo estrondo de carros e caminhões que passavam apressadamente pela estrada. Uma ou outra pessoa passou de bicicleta pelo casal que assistia ao fim do dia sem dizer nenhuma palavra, como em um pacto sagrado de silêncio.</p>
<p>Michele escorregava pelo capô constantemente e sentia sua perna recostar-se como que por vontade própria sobre a perna de Cláudio, e apesar de certo desconforto, estava se divertindo com o jogo de sedução maquinado pela gravidade, e os efeitos que ele causava no casal. Em alguns minutos, Cláudio decidiu segurar Michele pelo ombro e a manteve presa encostada ao seu lado, enquanto que ela respondeu recostando sua cabeça sobre o ombro de seu marido. Lá pelas tantas já sentia certa dormência, mas não se mexeria jamais se o reboque não tivesse chegado. E sabia que Cláudio também não.</p>
<p>No entanto, ele foi atender os mecânicos, reclamou sonoramente pela demora, e Michele decidiu sentar no capô do Santana prata de Cláudio, ignorando a cena do rebocamento. Entrou em certo transe, como se simplesmente não soubesse lidar com a felicidade sincera que estava experimentando naquele instante. O reboque partiu com seu carro e Cláudio voltou-se a sua esposa. Sentaram lado a lado novamente, mas dessa vez o capô do carro não era tão inclinado, e a magia não se repetiu. Frustrada, Michele voltou-se para dar um último olhar panorâmico naquele cenário o qual observou durante horas e levantar-se para partir quando viu alto, distante no horizonte, a lua cheia, cortada horizontalmente por uma fina camada de nuvens, como em um filme de lobisomens. Era uma cena ainda mais bela que o pôr-do-sol, e Cláudio inesperadamente se levantou e deu dois passos em direção a lua e permaneceu em silêncio, estático. Michele ficou assombrada com a inesperada atitude de seu marido, e o observava com uma já esquecida admiração. Decidiu comentar: “Bonito né? A gente não tem uma vista dessas lá em casa&#8230;”. Esse deveria ser um comentário amenizador, para devolvê-la ao controle da situação, mas foi um gatilho para o inesperado.</p>
<p>Cláudio virou-se rapidamente, e caminhou até Michele numa velocidade estranhamente lenta, e em seu rosto estava desenhado um outro homem, com um sorriso misterioso no canto da boca, um olhar fixo e decidido, mas ao mesmo tempo tenro e atraente. Em um gesto galante requisitou a mão de Michele, que não o resisitiu, levantou-a do carro, e em seu ouvido disse, nem alto nem baixo: “Você já dançou com o diabo sob o pálido luar?”. Soltou uma sonora gargalhada, daquelas que ele não gosta normalmente de exibir, e em um puxão um pouco desajeitado, começou a dançar uma valsa surda com sua esposa, agora passiva.</p>
<p>Ela entrou em completo deleite, sentia os olhos pesarem, um incômodo profundo, como se estivesse acordando de um pesadelo e tivesse que contar todas as coisas terríveis que tinha feito enquanto dormia, sobre as mentiras, as enxaquecas, a conta de telefone, até sobre Diego, o amante. Mas sua garganta estava seca e ela consumiu suas energias evitando o choro para esticar ao máximo aquele momento sublime, de dois pra lá e dois pra cá, um tropeço aqui e outro ali, mas com a sensação de seu rosto no ombro de seu marido, o braço recostado em sua cintura, suas mãos unidas, a girar lentamente pelo acostamento da estrada.</p>
<p>Por quanto tempo aquele momento durou, ela não sabia. Mas por conta de um mosquito ou de um caminhão mais barulhento o transe foi suavemente rompido e eles se beijaram e entraram no carro sorrindo. Ela sabia que queria fazer amor como nunca, queria estourar aquele champanhe por ter reencontrado seu amor, e aquele sentimento duraria para sempre, não fosse o filho cobrando da mãe ajuda para a prova de matemática no dia seguinte, e já era onze da noite. Cláudio deu um beijo na testa de ambos e foi dormir, sem dizer nada. Michele ficou com o garoto até às duas da manhã, e sonhou com a comemoração no dia seguinte, mas no fundo sabia que o momento estava perdido, e tinha que aguardar a próxima chance. Passaram-se dias, semanas, meses, e nada. Aquele amor já era um caso perdido novamente, pensou.</p>
<p>Num dia qualquer de Maio, ela conferiu a geladeira, como sempre, e notou a ausência da garrafa de champanhe. Era algo gritante, uma amputação perturbadora naquele cenário de esperança. Michele não quis perguntar novamente. Decidiu que não se incomodaria mais. Ajeitou os espaços na geladeira, olhou tristemente para seu marido sentado ao pé da cama lendo o jornal, foi direto ao banho. Ao deitar, perguntou: “O que você quis dizer com aquela coisa de dançar com o diabo sob o pálido luar?”. Cláudio ficou confuso, mas entendeu a questão, sorriu estranhamente de novo, e respondeu simplesmente: “É uma fala do Coringa no Batman do Tim Burton, antes de dançar com a mocinha, achei que tinha entendido.” Riu um pouco debochadamente, sem disfarçar o descontentamento. Michele virou-se e foi dormir. E voltou a pensar em divórcio, como não pensava havia um bom tempo.</p>
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<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:28.5pt;">Michele chegou em casa, abriu a geladeira e encontrou uma garrafa de champanhe encaixada casualmente na parte de baixo da porta, entre uma garrafa d’água e um suco de caixinha. A visão de uma garrafa e champanhe a deixou perturbada. Como qualquer mãe de família, com um filho mais velho adolescente, cogitou por um instante ser dele a garrafa, mas certamente seu filho não era tão burro ou tão desafiador. A única origem plausível para aquela garrafa de espumante era seu marido.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:28.5pt;">No momento em que notou esse fato sentiu uma pontada de excitação subir rapidamente pela coluna. Não se tratava mais de apenas uma garrafa, era uma certeza de que em breve haveria uma surpresa, um motivo para comemorar, e não era para a virada de ano, em pleno Setembro.  Com esse pensamento em mente, se direcionou ao quarto. Chegou lá encontrou a cena rotineira: ele se sentava ao pé da cama, de cueca samba-canção, segurando o jornal e, como sempre, fazendo a mesma expressão de discreto amedrontamento com as notícias do mundo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:28.5pt;">A cena cotidiana se mostrou insuportavelmente verdadeira diante do distúrbio atmosférico que aquela garrafa causara. Em uma manobra estratégica, decidiu fazer aquele jogo e perguntar sobre nada. Arriscou um “Oi Cláudio, teve um bom dia? &#8211; Essa era a pergunta que sempre fazia, todos dias da semana em mais tempo do que se recorda. No entanto, sua entonação era incapaz de esconder certo transtorno. A resposta de Cláudio, entretanto, não demonstrou qualquer tipo de sentimento especial. Como de costume, balançou a cabeça, respirou fundo, comentou sem levantar os olhos sobre algum colega ou funcionário que faz algo de errado, respirou fundo de novo, falou com apreensão sobre alguma notícia de impacto mundial, balançou por fim a cabeça, fez uma pequena pausa e ergueu os olhos, mirou Michele, e devolveu a pergunta.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:28.5pt;">Ela não tinha certeza do que dizer naquele momento. Mesmo respondendo a mesma pergunta todos os santos dias dos últimos anos, ela não elaborou aquele momento daquela maneira. Por insegurança, tentou demonstrar força. Falou que teve um ótimo dia, que fez um excelente acordo, e esperava que as coisas fossem melhorar ainda mais em breve.  Enquanto falava, ela ia se incomodando com o jeito que seu marido a olhava nos olhos e escutava atentamente suas palavras, cada vez mais exageradas numa tentativa vão de contra-atacar com aquilo que esperava ouvir.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:28.5pt;">Cláudio então quebrou a rotina. Levantou-se. Michele ainda acreditava que aquele poderia ser o momento da revelação, e prendeu de leve o ar nos seus pulmões enquanto seu marido a abraçava e dizia que a amava muito e estava feliz por ela. Deu-lhe um beijo e queria fazer amor para comemorar o dia. Mas de súbito ela percebeu o quanto que aquela reação era óbvia. Toda vez que ela aparecia com uma boa notícia em casa, ele fazia sempre a mesma cena, sempre aquele gesto coreografado de carinho e sentiu-se amarga. Empurrou-o quase delicadamente para o lado, comentou sobre suas constantes enxaquecas e foi para o banho. Ela sabia que quando voltasse ele não estaria mais no quarto, e sim na sala assistindo o DVD dos melhores gols do Zico.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:28.5pt;">E assim ela achou que deveria deixar aquela revelação vir com suas próprias pernas, com um andar leve felino em caça, e se preparava para o bote todos os dias, todos os momentos. No começo, ela ficou mais bonita, mais vaidosa, emagreceu e até Diego, seu ex-amante, voltou a procurá-la. Ele a havia deixado três anos antes, alegando que não achava justo o que estava acontecendo, e era hora de parar antes que Cláudio descobrisse. Ela esquivou-se elegantemente do assédio, visto que seu marido em breve se revelaria novamente um homem apaixonante. E com os meses a espera foi ganhando ares de monotonia. Sua paciência esgotou-se, tornou-se uma pessoa mais rancorosa, já não tinha mais certeza de que aquele champanhe era para ela. Imaginou se seu marido tinha uma amante, chegou a segui-lo certa vez, mas desistiu da idéia de uma amante assim que percebeu que a rotina dele era perfeita demais para abrir espaço a essas mudanças. Michele perdeu sua vaidade, ficou relapsa e menos caprichosa no trabalho, na vida, com os filhos, e voltou a considerar seriamente abandonar seu marido, coisa que não fazia há anos, desde Diego.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:28.5pt;">As pessoas começaram a notar que havia algo de errado, e Cláudio certa noite a perguntou se ela estava bem, se algo a incomodava. A essa altura, o Réveillon já havia passado, e a garrafa continuava ali, imóvel. Seu filho perguntou, finalmente. Ela negou a existência de uma garrafa de champanhe ao garoto rebelde. Foi repreendida no trabalho, e foi mandada para a filial de Magé para atualizar seus relatórios. Esse escritório ficava bem mais longe da sua casa do que a matriz, mas era uma oportunidade de crescimento na empresa.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:28.5pt;">No fim do dia, ela voltava para casa quando seu carro quebrou. Era um dia bonito, e o carro ficou parado no acostamento, em uma paisagem de ares bucólicos, com aquela luz que o sol produz no outono ao se por na serra. Olhou em volta, pesnou em pedir ajuda a alguém, mas estava cansada, entristecida, frustrada e então decidiu ligar para seu marido e pedir ajuda. Falou com ele rapidamente pelo celular, enquanto Cláudio saiu em disparada para resgate. Chegou rapidamente, esbaforido, testou a ignição, olhou o motor, fez caras e grunidos, sujou-se e decidiu chamar um reboque. Enquanto esperavam, sentaram-se no capô do corsa azul-marinho de Michele e ficaram obervando o sol esconder-se atrás dos morros e montanhas, as sombras que se desenhavam sobre os pastos e o barulho do vento, intercalado pelo estrondo de carros e caminhões que passavam apressadamente pela estrada. Uma ou outra pessoa passou de bicicleta pelo casal que assistia ao fim do dia sem dizer nenhuma palavra, como em um pacto sagrado de silêncio.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:28.5pt;">Michele escorregava pelo capô constantemente e sentia sua perna recostar-se como que por vontade própria sobre a perna de Cláudio, e apesar de certo desconforto, estava se divertindo com o jogo de sedução maquinado pela gravidade, e os efeitos que ele causava no casal. Em alguns minutos, Cláudio decidiu segurar Michele pelo ombro e a manteve presa encostada ao seu lado, enquanto que ela respondeu recostando sua cabeça sobre o ombro de seu marido. Lá pelas tantas já sentia certa dormência, mas não se mexeria jamais se o reboque não tivesse chegado. E sabia que Cláudio também não.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:28.5pt;">No entanto, ele foi atender os mecânicos, reclamou sonoramente pela demora, e Michele decidiu sentar no capô do Santana prata de Cláudio, ignorando a cena do rebocamento. Entrou em certo transe, como se simplesmente não soubesse lidar com a felicidade sincera que estava experimentando naquele instante. O reboque partiu com seu carro e Cláudio voltou-se a sua esposa. Sentaram lado a lado novamente, mas dessa vez o capô do carro não era tão inclinado, e a magia não se repetiu. Frustrada, Michele voltou-se para dar um último olhar panorâmico naquele cenário o qual observou durante horas e levantar-se para partir quando viu alto, distante no horizonte, a lua cheia, cortada horizontalmente por uma fina camada de nuvens, como em um filme de lobisomens. Era uma cena ainda mais bela que o pôr-do-sol, e Cláudio inesperadamente se levantou e deu dois passos em direção a lua e permaneceu em silêncio, estático. Michele ficou assombrada com a inesperada atitude de seu marido, e o observava com uma já esquecida admiração. Decidiu comentar: “Bonito né? A gente não tem uma vista dessas lá em casa&#8230;”. Esse deveria ser um comentário amenizador, para devolvê-la ao controle da situação, mas foi um gatilho para o inesperado.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:28.5pt;">Cláudio virou-se rapidamente, e caminhou até Michele numa velocidade estranhamente lenta, e em seu rosto estava desenhado um outro homem, com um sorriso misterioso no canto da boca, um olhar fixo e decidido, mas ao mesmo tempo tenro e atraente. Em um gesto galante requisitou a mão de Michele, que não o resisitiu, levantou-a do carro, e em seu ouvido disse, nem alto nem baixo: “Você já dançou com o diabo sob o pálido luar?”. Soltou uma sonora gargalhada, daquelas que ele não gosta normalmente de exibir, e em um puxão um pouco desajeitado, começou a dançar uma valsa surda com sua esposa, agora passiva.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:28.5pt;">Ela entrou em completo deleite, sentia os olhos pesarem, um incômodo profundo, como se estivesse acordando de um pesadelo e tivesse que contar todas as coisas terríveis que tinha feito enquanto dormia, sobre as mentiras, as enxaquecas, a conta de telefone, até sobre Diego, o amante. Mas sua garganta estava seca e ela consumiu suas energias evitando o choro para esticar ao máximo aquele momento sublime, de dois pra lá e dois pra cá, um tropeço aqui e outro ali, mas com a sensação de seu rosto no ombro de seu marido, o braço recostado em sua cintura, suas mãos unidas, a girar lentamente pelo acostamento da estrada.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:28.5pt;">Por quanto tempo aquele momento durou, ela não sabia. Mas por conta de um mosquito ou de um caminhão mais barulhento o transe foi suavemente rompido e eles se beijaram e entraram no carro sorrindo. Ela sabia que queria fazer amor como nunca, queria estourar aquele champanhe por ter reencontrado seu amor, e aquele sentimento duraria para sempre, não fosse o filho cobrando da mãe ajuda para a prova de matemática no dia seguinte, e já era onze da noite. Cláudio deu um beijo na testa de ambos e foi dormir, sem dizer nada. Michele ficou com o garoto até às duas da manhã, e sonhou com a comemoração no dia seguinte, mas no fundo sabia que o momento estava perdido, e tinha que aguardar a próxima chance. Passaram-se dias, semanas, meses, e nada. Aquele amor já era um caso perdido novamente, pensou.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:28.5pt;">Num dia qualquer de Maio, ela conferiu a geladeira, como sempre, e notou a ausência da garrafa de champanhe. Era algo gritante, uma amputação perturbadora naquele cenário de esperança. Michele não quis perguntar novamente. Decidiu que não se incomodaria mais. Ajeitou os espaços na geladeira, olhou tristemente para seu marido sentado ao pé da cama lendo o jornal, foi direto ao banho. Ao deitar, perguntou: “O que você quis dizer com aquela coisa de dançar com o diabo sob o pálido luar?”. Cláudio ficou confuso, mas entendeu a questão, sorriu estranhamente de novo, e respondeu simplesmente: “É uma fala do Coringa no Batman do Tim Burton, antes de dançar com a mocinha, achei que tinha entendido.” Riu um pouco debochadamente, sem disfarçar o descontentamento. Michele virou-se e foi dormir. E voltou a pensar em divórcio, como não pensava havia um bom tempo.</p>
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		<title>Discurso Sobre a Mentira</title>
		<link>http://pedrasabao.wordpress.com/2009/07/29/discurso-sobre-a-mentira/</link>
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		<pubDate>Wed, 29 Jul 2009 12:55:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>prabhudesa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Após alguns minutos de meditação muito superficial acerca (dentre alguns por menores) do que considero como experiência sensível, me imbuí da penosa tarefa de elaborar uma crítica à verdade, crítica esta que visa demonstrar como essa busca cega e dogmática a ela nos enclausura nos calabouços do saber, monocromatizando a vivência, se utilizando de paradigmas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pedrasabao.wordpress.com&amp;blog=7555492&amp;post=26&amp;subd=pedrasabao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:justify;"><em>Após alguns minutos de meditação muito superficial acerca (dentre alguns por menores) do que considero como experiência sensível, me imbuí da penosa tarefa de elaborar uma crítica à verdade, crítica esta que visa demonstrar como essa busca cega e dogmática a ela nos enclausura nos calabouços do saber, monocromatizando a vivência, se utilizando de paradigmas para esfriar as comunhões e minando toda e qualquer manifestação da pureza animal que, com esperança, ainda habita algum oásis na aridez do nosso espírito.</em></p>
<p style="text-align:justify;"><em>Parece-me que agora, após explanar a intenção do discurso, cabe a mim elaborar alguma forma, um método para melhor conduzir minhas&#8230;</em></p>
<div id="attachment_28" class="wp-caption aligncenter" style="width: 432px"><a href="http://www.flickr.com/photos/el_edukador/2313219452/"><img class="size-full wp-image-28" title="discurso sobre a mentira" src="http://pedrasabao.files.wordpress.com/2009/07/discurso-sobre-a-mentira2.jpg?w=460" alt="por el edukator"   /></a><p class="wp-caption-text">por el edukator</p></div>
<p style="text-align:justify;">– PUTA QUE PARIU !!!! –  A música tribal tocada nas teclas do computador dá lugar a gritos desesperados de retaliação – PORQUE VOCÊ FICA DURO !!!!????<span id="more-26"></span></p>
<p style="text-align:justify;">Esse é o dia derradeiro para Francisco, hoje faz uma semana que seu artigo para uma grande revista de filosofia esta atrasado.</p>
<p style="text-align:justify;">Há nove dias atrás ele recebeu uma ligação de Márcio lhe encomendando um artigo de mais ou menos trinta linhas tratando de qualquer coisa, filosofia moderna, da natureza, contemporânea, lógica dialética, qualquer tema com uma abordagem filosófica para ser publicado no lugar da coluna de Hercílio, um “bosta pedante de pau pequeno” segundo o próprio Francisco. Nesse dia, Francisco tinha oito dias pela frente para fazer um artigo.</p>
<p style="text-align:justify;">Há oito dias atrás ele ainda tinha sete dias.</p>
<p style="text-align:justify;">Há sete dias atrás ele dava risada quando soube que Hercílio não poderia escrever o artigo esse mês porque estava internado. Não parece uma atitude razoável dar risada de qualquer um que esteja numa situação dessas, mas Francisco não valia nada mesmo e não seria surpresa para ninguém saber que o sujeito perdeu o dia ligando para todos os conhecidos em comum para dar a notícia da cirurgia de Hercílio.</p>
<p style="text-align:justify;">Há seis dias atrás, Francisco acordou as dez da manhã, porém só se levantou a uma da tarde, colocou uma bermuda e uma camisa, calçou os chinelos, escovou os dentes, se penteou no espelho do elevador e se dirigiu ao boteco na Paula Freitas. Lá saudou os conhecidos, pediu o prato executivo, colocou na conta como de costume e seguindo o ritual quase que diário começou a falar de mulher, futebol e Hercílio. Entre risadas, arrotos e pausas para admirar as meninas, surgiu o assunto:</p>
<p style="text-align:justify;">– O Hercílio finalmente operou!!! Bichona&#8230;. – disse Francisco; e outro cliente complementou:</p>
<p style="text-align:justify;">– E ele já até saiu do hospital. Fiquei sabendo hoje de manhã.</p>
<p style="text-align:justify;">Depois do almoço Francisco voltou para casa, ligou o computador, mas foi dormir de novo, e nesse ritmo mais um dia se passou.</p>
<p style="text-align:justify;">Há cinco dias atrás Francisco não tinha Conhecido Paula.</p>
<p style="text-align:justify;">Há quatro dias atrás, Francisco recebeu um convite por e-mail para uma festa na boate “the week”, pedindo a confirmação do nome na lista. Francisco nunca é convidado para nada por ser um homem realmente desagradável, se veste mal, é grosso, sua muito e é extremamente mal educado. Para ele um convite virtual era quase como ganhar na loto, só mesmo um desconhecido rifando e-mails como um A-10 lançando NAPALM na selva vietnamita poderia salva-lo de sua noite monótona em sites pornô, ou melhor: livrar seus conhecidos de sua companhia grotesca. O dia foi tomado pela expectativa da festa, e Francisco se preocupou em comprar uma camisa nova.</p>
<p style="text-align:justify;">Há três dias atrás, Francisco sentou para escrever e nada saiu. Nem o primeiro parágrafo, a primeira frase, a primeira palavra, nada. Pensou nos dois dias que tinha pela frente e concluiu que estava tão excitado com a festa, que seria em vão perder a tarde se desgastando com um ofício tão simples e orgânico para uma pessoa como ele ao invés de dormir e estar absolutamente descansado para o feito noturno. E foi o que fez.</p>
<p style="text-align:justify;">Há dois dias atrás, Francisco conheceu em uma boate a mulher que mudou sua vida. A mulher que atende pelo nome de Paula, despertou tudo que havia de bom nesse homem ao dar a oportunidade de, mesmo que num ambiente de penumbra perturbadora e som ensurdecedor chamado discoteca, ele se apresentasse, embora extremamente alcoolizado e bem por isso se mostrasse sincero a ponto de deixá-la ver por baixo daquela crosta de sujeira que envolvia seu espírito, que lá havia um homem, um cavalheiro gentil e por mais brega que possa parecer, louco para amar. Os dois ficaram juntos naquela noite, trocaram carinhos, beijos e no final da noite, segredos.</p>
<p style="text-align:justify;">Há um dia atrás, Francisco só tinha mais um dia para entregar o artigo, um número de telefone anotado em um guardanapo de papel e nenhuma vontade de escrever.</p>
<p style="text-align:justify;">Hoje Francisco discute com seu próprio falo, que estimulado pelas lembranças de Paula não o deixa se concentrar no artigo. Um parágrafo foi escrito em cinco horas que ele se encontrava sentado em frente ao computador, e a lembrança da amada já o tinha assaltado dez mil vezes. Tomado pelo impulso, Francisco se levantou, pegou na cabeceira da cama o guardanapo de papel onde estava escrito o telefone de Paula e ligou.</p>
<p style="text-align:justify;">- Alô. Hercílio?</p>
<p style="text-align:justify;">- Não. É Paula.</p>
<p style="text-align:justify;">- Desculpa Paula. É que eu ainda não me acostumei&#8230;</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pedrasabao.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pedrasabao.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pedrasabao.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pedrasabao.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pedrasabao.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pedrasabao.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pedrasabao.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pedrasabao.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pedrasabao.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pedrasabao.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pedrasabao.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pedrasabao.wordpress.com/26/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pedrasabao.wordpress.com/26/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pedrasabao.wordpress.com/26/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pedrasabao.wordpress.com&amp;blog=7555492&amp;post=26&amp;subd=pedrasabao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">prabhudesa</media:title>
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			<media:title type="html">discurso sobre a mentira</media:title>
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	</item>
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		<title>Mobiliário funcional</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Jul 2009 19:59:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>danielmls</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[A cama era o único móvel montado na casa. As paredes brancas do quarto estavam cercadas por peças de madeiras de móveis indistintos, iluminados pela luz indireta da noite. Parecia uma paisagem alienígena, reforçada pelo ar pesado, aquela mistura dos cheiros de tinta fresca, poeira e sexo. Deitado com a cabeça virada para os pés [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pedrasabao.wordpress.com&amp;blog=7555492&amp;post=11&amp;subd=pedrasabao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A cama era o único móvel montado na casa. As paredes brancas do quarto estavam cercadas por peças de madeiras de móveis indistintos, iluminados pela luz indireta da noite. Parecia uma paisagem alienígena, reforçada pelo ar pesado, aquela mistura dos cheiros de tinta fresca, poeira e sexo. Deitado com a cabeça virada para os pés da cama, com os olhos fechados, eu tentava recuperar a respiração, enquanto me concentrava ao máximo para não me apaixonar. Não de novo. Queria ignorar a brisa fria que se infiltrava sob os lençóis e só sentia as mãos dela acariciando minha perna. Queria ignorar o som da sua respiração. Queria me concentrar ao ponto em que teria certeza absoluta que não passava de mais uma, daquelas bem mais ou menos.</p>
<div id="attachment_22" class="wp-caption aligncenter" style="width: 432px"><a href="http://www.flickr.com/photos/ghost-photo/1310266845/"><img class="size-full wp-image-22" title="mobiliário funcional" src="http://pedrasabao.files.wordpress.com/2009/07/mobiliario-funcional1.jpg?w=460" alt="por .:*ghost*:."   /></a><p class="wp-caption-text">por .:*ghost*:.</p></div>
<p>Ela se levantou. Eu ignorei. Ela abriu uma caixa e perguntou se podia pegar uma camisa emprestada. Eu ignorei. Ela vestiu a camisa, alisou minha nuca e andou até a porta. “Nem pense em dormir, o que temos para beber nessas suas caixas?” Não pude ignorar. Pendurei minha cabeça para trás, no pé da cama, e olhei para a porta de cabeça para baixo. A luz do corredor acesa desenhava sua silhueta: ela estava de costas, com a cabeça baixa, vestindo minha camisa de botões favorita, branca, que a luz fazia brilhar através do tecido, com ambas as mãos apoiadas na altura de sua cabeça no portal. Não tive coragem de responder. Aliás, nem lembrava que ela tinha perguntado alguma coisa.<span id="more-11"></span></p>
<p>Lentamente, virou o rosto em minha direção, lançou um sorriso discreto mas confiante, e suas pernas nuas se mexeram para que erguesse o pé direto e o posicionasse atrás do esquerdo, curvando-o para apoiar as costas de seus dedos sobre o chão e revelando a sola de seu pé suja da poeira da casa. Ela ergueu uma sobrancelha como quem quer dizer “e aí?”. “Ela é a Mia Wallace. Puta merda, ela é Mia Wallace, e eu não quero ser Vincent Vega. Já vi esse filme”, pensei. Entrei em súbito pânico, mas o mal já estava feito. Não podia mais ignorar.</p>
<p>Disse a ela para buscar a garrafa de whisky na caixa pequena na sala. E lá foi ela, deslizando com ar infantil sobre o chão empoeirado, lenta e sinuosa, seu cabelo preto e liso pendulava rente sobre seu ombro. Sentei na cama e coloquei alguma roupa.</p>
<p>- Você já viu Pulp Fiction?, perguntei.</p>
<p>- Claro, quem nunca viu?</p>
<p>- E que personagem você seria?</p>
<p>- Ah, eu gosto mais do Samuel Jackson.</p>
<p>- Não vale, tem que ser mulher.</p>
<p>- Que machismo idiota, por quê? Só existem quatro mulheres com participação decente no filme: a Uma Thurman fazendo a Mia Wallace, aquela francesa, mulher do Bruce Willis, a histérica do assalto e a esposa do traficante.</p>
<p>- Então, dessas quatro, com quem você se identifica mais?</p>
<p>- Bom, sobrando só isso eu prefiro a francesa. Mas por que isso?</p>
<p>- Nada não. Achou a garrafa?</p>
<p>- Achei, mas está pela metade.</p>
<p>- Não importa, vem cá.</p>
<p>Deitei novamente na cama, repeti a posição que estava quando ela saiu. Ela voltou olhando pra mim e sorrindo, deu um longo gole no whisky, limpou a boca. Chegou perto de mim, abaixou-se, pegou minha cabeça e me deu um beijo úmido. “Só por hoje eu quero acreditar que você será a francesa que esquece meu relógio. Mas você sabe, e eu sei muito bem, que você é a Mia Wallace.” Ela riu, subiu na cama e me calou a boca.</p>
<p>Algumas horas depois o sol ameaçava sair, ela dormia do meu lado e saí pela casa. Aquele lugar era completamente estranho para mim ainda. Não sabia muito bem os caminhos, me surpreendia com as janelas e tropeçava nas caixas. Ela acordou, calma, e disse que ia embora. Falei para ela ficar. Para sempre. Ela abriu um sorriso gigante, e me fitou fixa. Eu caminhei de volta até o quarto, deitei na cama e a puxei para perto de mim. Abraçamos-nos e, por alguns instantes, esfregamos nossos pés empoeirados uns nos outros. Sob a luz do sol que vinha chegando, o cenário alienígena se perdia entre tábuas e portas e prateleiras de móveis desmontados, mas antes disso voltamos a dormir.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pedrasabao.wordpress.com/11/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pedrasabao.wordpress.com/11/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pedrasabao.wordpress.com/11/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pedrasabao.wordpress.com/11/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pedrasabao.wordpress.com/11/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pedrasabao.wordpress.com/11/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pedrasabao.wordpress.com/11/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pedrasabao.wordpress.com/11/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pedrasabao.wordpress.com/11/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pedrasabao.wordpress.com/11/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pedrasabao.wordpress.com/11/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pedrasabao.wordpress.com/11/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pedrasabao.wordpress.com/11/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pedrasabao.wordpress.com/11/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pedrasabao.wordpress.com&amp;blog=7555492&amp;post=11&amp;subd=pedrasabao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">mobiliário funcional</media:title>
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	</item>
		<item>
		<title>Pedra-sabão</title>
		<link>http://pedrasabao.wordpress.com/2009/06/25/pedra-sabao/</link>
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		<pubDate>Thu, 25 Jun 2009 21:27:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>prabhudesa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Começou quando o publicitário lusitano Jairo Martin, 37 anos, casado e bem sucedido, foi encontrado morto por sua esposa e seu vizinho nigeriano na sala de seu apartamento. O que circunda a vida e principalmente as circunstancias da morte de Martin, hoje é tido como quase um mito, uma lenda urbana que toma forma e [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pedrasabao.wordpress.com&amp;blog=7555492&amp;post=6&amp;subd=pedrasabao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Começou quando o publicitário lusitano Jairo Martin, 37 anos, casado e bem sucedido, foi encontrado morto por sua esposa e seu vizinho nigeriano na sala de seu apartamento. O que circunda a vida e principalmente as circunstancias da morte de Martin, hoje é tido como quase um mito, uma lenda urbana que toma forma e corpo de acordo com a imaginação do narrador, bem como sua sobriedade, neste caso do ouvinte também, visto ainda que é uma historia quase que necessária em mesas de bar da cidade do porto, e foi justamente em uma delas que escutei:</p>
<div id="attachment_24" class="wp-caption aligncenter" style="width: 432px"><a href="http://www.flickr.com/photos/brunonox/147909438/"><img class="size-full wp-image-24" title="pedra-sabão" src="http://pedrasabao.files.wordpress.com/2009/06/pedra-sabao1.jpg?w=460" alt="por Bruno Da Silva"   /></a><p class="wp-caption-text">por Bruno Da Silva</p></div>
<p>- Martin nasceu no final da década de 70 já despertando curiosidades. O parto, uma cesariana, ocorreu de forma tranqüila e típica a não ser pelo fato da criança não chorar. Não que isso seja impossível ou absurdamente raro, mas também esta longe de ser normal. Existem estatísticas que comprovam que na maioria esmagadora dos partos as crianças choram. Martin não chorou.<span id="more-6"></span></p>
<p>Cresceu, se desenvolveu bem, os dentes começaram a nascer e o incomodo era grande de fato, e ate o momento, uns 2 anos eu acho, nenhuma lagrima. Toneladas de risos, gritos aos montes, algumas silabas dessa língua que só eles dominam, mas nenhuma lagrima.</p>
<p>Era realmente muito estranho, seus pais procuraram um pediatra que apos uma bateria de exames coçou a cabeça e lascou um belisco no braço do menino. Martin gritou, franziu a testa, se aconchegou no colo da mãe mas não despejou uma lagrima sequer.- Não é fisiológico -  disse o medico, e o menino tem uma tolerância normal a dor, coisa que eu pensava contrario. Mas vamos dar um tempo. Ele é perfeitamente normal.</p>
<p>O tempo passou. No primeiro dia de aula não havia choro, muito menos nervosismo ou medo. Passou por tombos, braços quebrados e pontos na testa sem nenhuma lagrima.</p>
<p>Nunca foi afetuoso. Seus pais, ambos engenheiros químicos da universidade de Lisboa, também não eram. Cresceu com cumprimentos frios e tapinhas nas costas.  Não era bom com relacionamentos e o fazia somente quando necessário, de forma fria e matemática. Foi assim que com 15 anos, para evitar os comentários sobre sua sexualidade, que começou a namorar Paula, uma menina obesa e feia, 3 anos mais velha e louca para perder a virgindade.</p>
<p>No mesmo ano sua mãe morreu, Martin não chorou. Dois anos depois, Paula, não suportando mais a frieza de Martin, o abandonou para ficar com Lucio, o jovem dono da padaria do bairro. Martin deu de ombros e foi jogar bola.</p>
<p>No ano seguinte o pai de Martin morreu, o deixando sob a tutela de seu avô. Jairo Martin se recusava a chorar, não exteriorizava nada, como se simplesmente não sentisse, ou pior, não se importasse.</p>
<p>As frustrações e sucessos passaram, namoradas, casos, mortes de “amigos” e familiares, nenhuma lagrima, sem demonstrar tristeza ou luto, inabalável como uma rocha.</p>
<p>Diziam que tinha coração de gelo.</p>
<p>Em 1999 conheceu Regina, em Lugano na Suíça, durante uma conferencia de publicidade. Ela jura até hoje que ele gaguejou ao pedi-la em namoro, e sua boca estava seca no primeiro beijo, que até os primeiros anos de casamento ele era outro, não este que todos dizem estar acostumados. Tudo isso aconteceu na Suíça, onde os dois fixaram residência por tres anos. De volta a cidade do Porto, ele era o mesmo.</p>
<p>Foi surpreendente para Regina descobrir enfim a frieza de Jairo. Beijos na testa, indiferença, frases feitas. Ela se afastou.</p>
<p>Dai foram  dois anos para o fatídico dia em que o publicitário lusitano Jairo Martin, 37 anos, casado e bem sucedido, foi encontrado morto por sua esposa e seu vizinho nigeriano na sala de seu apartamento, sentado no chão da sala, recostado no sofá verde com a maleta no colo e os olhos vermelhos e marejados. O nigeriano que havia se tornado grande amigo de Regina, diz que ele tinha lagrimas no rosto no momento em que o encontraram, já Regina não falava nada.</p>
<p>A autopsia foi feita e não se sabe até hoje a causa da morte de Jairo Martin, um dos homens mais frios e secos do mundo, o homem que nunca chorou se tornou mais famoso não por ter morrido sem chorar, mas por que em sua autopsia descobriram um composto arenoso que permeava seu coração.</p>
<p>Existe uma página na Wikipedia sobre o homem com coração de pedra, e lá esses detalhes científicos estão mais claros. O que me recordo é que era um composto de talco, contendo muitos outros minerais como magnesita, clorita, tremolita&#8230;</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/pedrasabao.wordpress.com/6/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/pedrasabao.wordpress.com/6/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/pedrasabao.wordpress.com/6/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/pedrasabao.wordpress.com/6/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/pedrasabao.wordpress.com/6/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/pedrasabao.wordpress.com/6/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/pedrasabao.wordpress.com/6/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/pedrasabao.wordpress.com/6/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/pedrasabao.wordpress.com/6/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/pedrasabao.wordpress.com/6/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/pedrasabao.wordpress.com/6/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/pedrasabao.wordpress.com/6/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/pedrasabao.wordpress.com/6/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/pedrasabao.wordpress.com/6/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pedrasabao.wordpress.com&amp;blog=7555492&amp;post=6&amp;subd=pedrasabao&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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